Transportadores de açúcar abrem novo caminho para antibióticos combaterem bactérias resistentes

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Os cientistas descobriram que os antibióticos aminoglicósidos, uma classe crucial de medicamentos contra infecções bacterianas graves, penetram nas bactérias não através de difusão passiva, mas sequestrando transportadores de açúcar. Esta descoberta, publicada na Science Advances em 5 de setembro de 2025, por investigadores do Institut Pasteur e de instituições afiliadas, poderá revolucionar as estratégias de tratamento com antibióticos, especialmente face ao aumento da resistência aos antibióticos.

O antigo mistério da entrada de antibióticos

Durante décadas, a forma como os aminoglicosídeos violavam as defesas bacterianas permaneceu obscura. Esses antibióticos matam efetivamente bactérias como Escherichia coli, Pseudomonas aeruginosa e Staphylococcus aureus bloqueando a síntese de proteínas. No entanto, algumas cepas, incluindo E. coli, desenvolveram formas de evitar o tratamento, contribuindo para cerca de 829.000 mortes em todo o mundo em 2019. A teoria prevalecente sugeria que os aminoglicosídeos cruzavam passivamente o envelope celular bacteriano, mas novas evidências provam que este não é o caso.

O papel dos transportadores de açúcar

Os pesquisadores inicialmente descobriram essa descoberta enquanto estudavam as respostas bacterianas ao estresse aos antibióticos no Vibrio cholerae. Eles observaram uma correlação entre a eficácia dos antibióticos e a presença de transportadores de açúcar – “portas de entrada” moleculares que as bactérias usam para importar carboidratos essenciais como glicose, sacarose e frutose. Intrigados, eles investigaram esse mecanismo em E. coli.

Usando aminoglicosídeos fluorescentes, eles observaram diretamente os antibióticos entrando ativamente nas células bacterianas através desses transportadores de açúcar. Isto marca a primeira vez que se comprova que um antibiótico utiliza este modo de transporte. “Foi uma descoberta inesperada”, explica Zeynep Baharoglu, autor principal e diretor de pesquisa do Instituto Pasteur. “Mas os dados eram inegáveis.”

Aumentando a eficácia dos antibióticos com uridina

A equipe percebeu que os transportadores de açúcar não são fixos; seus números flutuam com base no ambiente circundante. Ao manipular a disponibilidade de certos açúcares, poderiam aumentar potencialmente a abundância de transportadores e, consequentemente, a permeabilidade aos antibióticos.

Após a triagem de 200 compostos, identificaram a uridina como um candidato particularmente eficaz. Em ambas as amostras biológicas humanas contaminadas com E. coli e modelos animais de infecção do trato urinário, a uridina duplicou o número de transportadores de açúcar, levando a um aumento de dez vezes na sensibilidade bacteriana aos aminoglicosídeos. Notavelmente, mesmo cepas resistentes a medicamentos e multirresistentes recuperaram a suscetibilidade quando a uridina estava presente.

Implicações para resistência a antibióticos e tratamentos futuros

Esta descoberta tem implicações de longo alcance. Ao administrar uridina junto com aminoglicosídeos, os médicos podem reduzir as dosagens de antibióticos, minimizando o risco de desenvolvimento de resistência adicional e reduzindo os efeitos colaterais tóxicos. Altas doses de aminoglicosídeos podem danificar o ouvido interno e os rins, uma preocupação que doses mais baixas poderiam atenuar.

“Esta é uma descoberta importante que pode mudar o jogo para esta classe de antibióticos”, diz Baharoglu. “Isso poderia nos permitir usar concentrações mais baixas ou tratamentos mais curtos, ampliando a utilidade desses medicamentos”.

Outra possibilidade é “enxertar” a uridina em outros antibióticos para aumentar a sua entrada em bactérias resistentes. O facto de a uridina já ser utilizada clinicamente e ter demonstrado segurança humana poderia acelerar o desenvolvimento e o teste destas novas estratégias.

Um passo crítico no combate à resistência aos antibióticos

A Organização Mundial de Saúde estima que as bactérias resistentes aos antibióticos estiveram associadas a mais de 6 milhões de mortes em 2019. Esta investigação sublinha a importância da investigação científica fundamental na abordagem desta crescente ameaça global. “Sem esta investigação básica, esta descoberta, que poderia desempenhar um papel fundamental em futuras estratégias de combate à resistência aos antibióticos, não teria sido possível”, conclui Didier Mazel, Chefe da Unidade de Plasticidade do Genoma Bacteriano do Instituto Pasteur. Este avanço oferece uma esperança renovada na luta contra a resistência aos antibióticos, ao desbloquear um novo mecanismo para aumentar a eficácia dos medicamentos existentes