Gordura corporal: mais do que apenas armazenamento – um importante regulador da saúde

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Durante décadas, a gordura corporal foi injustamente considerada um simples reservatório de energia. No entanto, pesquisas emergentes demonstram que o tecido adiposo é um órgão altamente ativo com uma complexidade surpreendente, desempenhando um papel crítico na função imunológica e até mesmo no controle da pressão arterial. Dois estudos recentes sublinham esta mudança de compreensão, indo além da visão simplista da gordura como mero excesso de bagagem.

A diversidade da gordura: além do branco, do marrom e do bege

A gordura não é uniforme. Ela se manifesta de múltiplas formas, cada uma com funções distintas. Gordura branca armazena energia e libera hormônios que influenciam o metabolismo. A gordura marrom gera calor, queimando calorias para manter a temperatura corporal. Gordura bege fica entre os dois, ativando a produção de calor sob condições específicas. Crucialmente, a localização é importante : a gordura subcutânea (sob a pele) é geralmente menos prejudicial do que a gordura visceral, que se acumula profundamente no abdômen e está fortemente ligada à inflamação, diabetes e doenças cardíacas.

Gordura como centro imunológico: a conexão intestinal

Pesquisas recentes revelam que a gordura regula ativamente a pressão arterial e coordena as respostas imunológicas. Um estudo liderado por Jutta Jalkanen, do Hospital Universitário Karolinska, em Estocolmo, mapeou células de gordura visceral no abdômen. Os pesquisadores descobriram que a gordura epiplóica, que envolve o intestino grosso, é extraordinariamente rica em células imunológicas e células de gordura especializadas que produzem proteínas inflamatórias. Essa gordura responde diretamente às bactérias intestinais, desencadeando a ativação imunológica.

“Nosso trabalho mostra que os depósitos de gordura parecem ser especializados de acordo com sua localização anatômica, e aqueles que ficam bem próximos ao intestino parecem particularmente adaptados para a interação imunológica”, diz Jalkanen.

Isso significa que mesmo indivíduos magros se beneficiam dessa proteção imunológica, já que todos possuem alguma gordura ao redor do intestino. No entanto, na obesidade, este sistema pode tornar-se cronicamente superativado. A ingestão excessiva de calorias ou um microbioma intestinal desequilibrado podem levar à inflamação persistente, contribuindo para condições metabólicas como o diabetes tipo 2.

O papel inesperado da gordura bege no controle da pressão arterial

O segundo estudo, realizado na Universidade Rockefeller, em Nova York, revela outra função inesperada da gordura: regular a pressão arterial. Os pesquisadores descobriram que o tecido adiposo perivascular, uma camada de gordura bege que envolve os vasos sanguíneos, é fundamental para manter o fluxo sanguíneo saudável. Ratos geneticamente modificados para não terem essa gordura bege apresentaram vasos sanguíneos mais rígidos e pressão arterial elevada.

A chave para esse efeito é uma enzima chamada QSOX1, liberada por células adiposas disfuncionais. O bloqueio do QSOX1 normalizou a pressão arterial em camundongos, destacando a comunicação crítica entre o tecido adiposo e o sistema circulatório. Esta descoberta sugere que simplesmente reduzir a massa gorda total não é suficiente; preservar ou restaurar a função de depósitos específicos de gordura é igualmente importante.

Uma mudança de paradigma na compreensão do tecido adiposo

Estes estudos desafiam colectivamente a visão de longa data da gordura como um depósito de armazenamento passivo. Em vez disso, a gordura é um tecido complexo com diversas funções, que vai muito além do armazenamento de nutrientes. Paul Cohen, um investigador envolvido no estudo da pressão arterial, reflecte sobre esta mudança: “Quando comecei a trabalhar nesta área no final da década de 1990, a visão predominante era que a gordura era apenas um simples saco de células que armazenava nutrientes em excesso… reconhecendo a gordura não como um único tipo de célula, mas como um tecido complexo com muitos tipos diferentes de células com funções diferentes”.

As terapias futuras podem se concentrar em atingir depósitos específicos de gordura, modular a comunicação imuno-gordura ou manter a atividade saudável da gordura bege, em vez de apenas reduzir a massa gorda geral. No entanto, mais pesquisas são necessárias antes que essas estratégias possam ser traduzidas em aplicações clínicas.