Estamos gritando no vazio

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Durante discursos públicos sempre surge a pergunta. Os alienígenas existem?

Eu faço uma pausa. A sala espera. Minha resposta choca as pessoas. Com certeza. Eu nem considero a outra opção.

Como radioastrônomo, essa certeza parece mundana. Vemos os dados do exoplaneta. A Terra 2.0 não é mais uma questão. É uma inevitabilidade estatística. Mesmo que a vida seja rara, os números na Via Láctea abafam essa raridade. Não estamos sozinhos. Nem perto.

Também não estou falando de fungos viscosos. Quero dizer inteligência. Mentes complexas. É aqui que o silêncio atinge fortemente o público.

As pessoas esperam debate. Eles querem uma guerra entre a ciência e a crença. Principalmente eles confundem SETI com OVNIs. Isso é um erro. Os alienígenas visitaram? Absolutamente não. Também tenho certeza disso. Sem pirâmides. Sem círculos nas plantações. Apenas Vênus e foco ruim da câmera. Se os avistamentos de OVNIs fossem reais, a posse de smartphones já os teria triplicado. Não aconteceu. Essa é a parte da conspiração. Deixe aí.

SETI é diferente. É rigoroso. É matemática e rádio. Não nos perguntamos se. Sabemos que eles estão lá. Só queremos dizer olá.

O sinal de Drake

Frank Drake não queria esperar. Ouvir é passivo. Drake queria gritar.

Em 1974, no Observatório de Arecibo, ele lançou o METI. Mensagens de inteligência extraterrestre. Transmissão ativa.

Ele usou o prato grande. 305 metros de antena apontada para o céu durante uma gala de reforma. A mensagem? 1.679 bits de dados. Binário.

Um tom significa preto. Outro significa branco. É essencialmente pintado por números, mas para civilizações a anos-luz de distância. O conteúdo? Uma silhueta humana. Um mapa de DNA. Nosso sistema solar.

Drake escolheu 1.679 porque é um semiprimo. $ 23 \ vezes 73 $. Somente essas dimensões fazem a imagem funcionar. Qualquer alienígena inteligente que decifrasse esse código identificaria os números primos. Eles remodelariam os dados. Eles veriam a foto.

Três minutos de duração. O sinal explodiu. Dez milhões de vezes mais brilhante que o ruído de rádio natural do Sol. Durante aqueles 180 segundos fomos um farol no escuro.

Eu ouvi o áudio. Não é Mozart. São dois tons clicando para frente e para trás. Beep bip bip. Mas saber que isso carrega a face de nossa espécie para o cosmos? É pesado. Provavelmente fez alguém chorar na selva porto-riquenha.

Para onde foi? M13. A constelação de Hércules. Alvo de 21.000 anos-luz. Escolhido porque estava no alto naquele dia e tinha muitas estrelas. Um bairro denso.

Agora é estranho. No momento em que o feixe de rádio atinge M13, o aglomerado estelar pode ter se movido. Miramos em um alvo em movimento e atiramos às cegas. Mas o sinal está lá fora. Irreversível.

Na hora do almoço daquele dia, passou por Plutão. Hoje já passou de 51 Pegasi b. À deriva. Silencioso.

O céu faminto

Drake sofreu resistência. Duro.

O Astrônomo Real de Sir Martin Ryle England odiou. Ele escreveu à IAU exigindo a proibição. Seu medo era simples. E se eles estiverem com fome? E se eles forem malévolos? Deveria um homem decidir por todo o planeta?

A maior parte do SETI revirou os olhos. O gênio já estava fora. Vazamento de ondas de rádio. As transmissões de TV escapam. Estamos barulhentos desde Marconi. Se alguém virá depende da física e da economia.

Eles poderiam viajar? Talvez. Eles gastariam essa energia vindo para cá? Provavelmente não. Imagine se os alienígenas tivessem que construir uma arca interestelar agora mesmo durante a nossa crise energética. Nós não faríamos isso. Por que presumir que sim?

Drake fala sem rodeios. Se eles estivessem chegando, ele se sentaria em sua cadeira de jardim e esperaria. Não há necessidade de telescópios. Apenas observe o céu.

Contato não é invasão. É e-mail.

E-mail bem mais lento. TRAPPIST-1 está a 40 anos-luz de distância. Envie um olá agora. Espere oitenta anos pela resposta. Isso não é um bate-papo. É uma correspondência do amigo por correspondência da sua avó. Lento. Intencional. Não é algo que alimenta os ciclos diários de notícias.

Estamos prontos para isso culturalmente. A ficção científica nos preparou. Os alienígenas já estão em nossas salas na Netflix. Descobrir que eles são reais pode ser como atualizar a música de fundo do universo.

Os orçamentos são cortados. Os céticos reclamam. Os políticos discutem. Mas continuamos procurando. Porque a física é universal.

Céus verde-amarelos ou cinco luas não importam. O rádio funciona em todos os lugares. É a língua franca da comunicação à distância.

Talvez agora mesmo, no TRAPPIST-1, um garoto verde com vinte dedos tenha ligado um novo radiotelescópio. Talvez eles apenas tenham clicado em enviar. Eles cruzaram aqueles vinte dedos esperando que alguém os ouvisse.

Estamos afinando nossos pratos. Esperando. O feixe pode estar a séculos de distância ou já estar aqui, saltando em torno da poeira.

Não sabemos quando a resposta chegará. Ou se é um olá. Apenas mantemos nossos olhos no escuro e ouvimos a estática.