Foi uma longa viagem. Oito meses de Portsmouth a Botany Bay. A sabedoria que prevaleceu entre os historiadores durante décadas foi simples: o vírus vivo não sobreviveria à viagem. Ar salgado. Aquecer. Tempo. Não era impossível, talvez, mas parecia altamente improvável. Então, de onde veio a varíola? As teorias apontavam para o norte. Aos pescadores de Makassar. Para entrar em contato com os indígenas australianos nos confins da costa tropical do continente.
Um novo estudo, publicado em 9 de julho na Nature Human Behavior, destrói essa narrativa. A resposta não está no norte. Está nos porões de carga da Primeira Frota.
O vírus chegou com os colonos britânicos. Especificamente, provavelmente veio em frascos com crosta seca de varíola. Os médicos britânicos carregavam-nos para inoculações – o perigoso e precoce precursor da vacina que Edward Jenner acabaria por desenvolver na década de 1790. Eles não estavam procurando por uma epidemia. Eles estavam tentando impedir um. Mas as crostas eram viáveis. E encontraram uma população com imunidade zero.
A origem do surto de 1789
O debate sobre a origem do surto de 1789 tem sido há muito um impasse entre probabilidade e possibilidade. A “teoria Makassar” prevaleceu porque ofereceu uma saída de emergência limpa. Se os navios britânicos não fossem responsáveis, o fardo moral mudaria. Sugeria transmissão acidental através de redes comerciais ao longo da costa norte, longe da colónia estabelecida de Sydney Cove.
Alan Williams, arqueólogo da EMM Consulting e coautor deste novo estudo, diz que a matemática não mente. Williams disse ao Live Science que os frascos provavelmente foram reabastecidos durante as escalas da frota. Cidade do Cabo? Rio de Janeiro? Não importa qual, apenas que a viagem não foi um vazio estéril. O vírus foi mantido vivo, ou pelo menos as crostas que o continham permaneceram infecciosas.
“Há evidências muito fortes de que foi a primeira frota.”
Matthew Cody Nitschke, da Flinders University, outro coautor especializado em modelagem computacional, não mediu palavras. A ideia de que a varíola veio do norte? Perdido. Os modelos computacionais mostram uma divergência acentuada. Se a doença tivesse começado no norte, o modelo da sua propagação para sudeste – onde os britânicos desembarcaram e onde o surto atingiu mais duramente – corresponderia à realidade. Isso não acontece. As duas regiões estavam separadas por milhares de quilômetros. Milhares. Do deserto vazio e desabitado. A varíola não se teletransporta. Não pula cercas.
Por que a teoria da costa norte estava errada
A geografia é um mestre cruel. A nova modelação confirma o que o bom senso deveria ter sussurrado: as rotas de transmissão do norte tropical até Port Jackson são efectivamente inexistentes para um agente patogénico que se move tão lentamente. O deserto é muito amplo. A densidade populacional é demasiado escassa nessas zonas intermédias.
Quando a Primeira Frota chegou em janeiro de 1788, não havia sinais de varíola nas comunidades indígenas próximas. James Cook havia mapeado a costa leste décadas antes, em 1770. Ele trouxe esboços, notas e plantas. Ele não trouxe a varíola. Pelo menos, não visivelmente. Mas a Primeira Frota chegou onze anos depois. E eles trouxeram sua bagagem médica com eles.
O surto não aconteceu simplesmente. Ele se espalhou. E se espalhou com eficiência assustadora pelos densos assentamentos indígenas ao redor de Port Jackson. As simulações de computador colocam o ponto de origem exatamente ali. Não num acampamento de pesca no norte. Não num navio perdido da Indonésia. Mas na esteira dos navios britânicos.
A verdadeira escala da tragédia
Sempre subestimamos a população de indígenas australianos no momento do contato. A velha figura? Aproximadamente 300.000. Parece alto. Parece um número administrável para um continente de 7,6 milhões de quilómetros quadrados. Está errado.
Este novo estudo, que se refere a um artigo complementar em revisão, sugere que a população era provavelmente entre 2 e 3 milhões. Alguns modelos chegam a aumentar a capacidade teórica de suporte pré-contato para 5 milhões. A discrepância existe porque os dados do censo do início do século XX tentaram contar os sobreviventes. Após 100 anos de doença. Depois da violência na fronteira. Após deslocamento. Os números entraram em colapso. Os historiadores trabalharam retroativamente a partir desse esgotamento e concluíram que a população sempre foi pequena. Não foi assim.
Só o surto de 1789 pode ter matado aproximadamente 220 mil pessoas.
Considere a logística desse número de mortos. Espalhados por comunidades que nunca tinham visto as cicatrizes da varíola. O sistema imunológico não falha simplesmente; está obliterado. A devastação não foi apenas biológica. Foi cultural. Foi estrutural. O rápido desaparecimento das culturas indígenas no sudeste não se deveu apenas à apreensão de terras. Tratava-se da pura incapacidade de uma sociedade funcionar quando os seus membros caíam mortos nas ruas.
Revisando Narrativas Históricas
A implicação aqui é desconfortável para uma narrativa nacional construída sobre o conceito de terra nullius – terra que não pertence a ninguém. Se a terra fosse densamente povoada. Se a civilização fosse complexa. E se essa civilização foi dizimada por um agente patogénico introduzido inadvertidamente pelos colonizadores, então o quadro jurídico e moral do acordo parece significativamente diferente.
Henry Reynolds, historiador da Universidade da Tasmânia que não esteve envolvido no estudo, chama a nova pesquisa de desmascaramento. Ele observa que a ideia da origem do Litoral Norte sempre foi improvável. Era um mito conveniente. Permitiu que os historiadores tratassem o surto como um evento natural, semelhante a uma tempestade ou inundação. Um ato de Deus.
Mas não foi Deus. Era um frasco de médico britânico. Ou a loja de um navio. Ou um momento de falta de higiene. A teoria da doença ainda não foi estabelecida, então a propagação foi um acidente. Mas os acidentes têm causas. E a causa foi a Primeira Frota.
O estudo rejeita a ideia contrária. Utiliza modelagem matemática para mostrar o impacto da doença. Ele alinha a linha do tempo. Corresponde à geografia. E aponta o dedo para os mesmos navios que hastearam a bandeira em Sydney Cove.
Isso muda o que sabemos? Sim. Isso muda a tragédia? Não. Os 220 mil que morreram ainda já se foram. As comunidades ainda estão perturbadas. Mas pelo menos a fonte agora está clara. Não os ventos do norte. Não os pescadores no horizonte. A fonte estava no porto. Esperando. Assistindo.





















